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Setor de Fiscalização de Penas Substitutivas comemora cinco anos

Setor de Fiscalização de Penas Substitutivas comemora cinco anos
Reconhecimento do trabalho  pode ser visto pelo aumento do número de parceiros cresce
Vanderleia Rosa e Goretti Paiva
    O Setor de Fiscalização de Penas Substitutivas da Vara de Execuções Criminais de Belo Horizonte completou cinco anos. E os números revelam que há muito o que comemorar!  Nesse período, 1.680 sentenciados cumpriram pena de prestação de serviços comunitários e cerca de 1.000 estão cumprindo. O número de entidades parceiras também cresceu e, hoje, já são 335 cadastradas. Também é motivo para comemorar o baixo índice de reincidência - de janeiro a julho de 2003, foram registrados apenas nove casos, entre 300 que cumpriam pena no período.
    Todos aqueles, cuja pena é a prestação de serviços à comunidade, foram beneficiados com a conversão da pena privativa de liberdade em restritiva de direitos. A Lei prevê que a condenação privativa de liberdade, inferior a quatro anos de prisão, pode ser convertida em pena restritiva de direitos. Isso no caso de o infrator não ter praticado crime com violência contra pessoa, nem ser reincidente. Além da prestação de trabalhos comunitários, os beneficiários podem pagar pelo seu crime, através da pena pecuniária (multa).
    Outro registro positivo, de acordo com a assistente social do Sefips, Adriana Bicalho, são os casos de beneficiários que são contratados pelas instituições onde prestaram serviços. Outros tornam-se voluntários de entidades carentes, desenvolvendo atividades de recreação como gincanas, bingos, dentre outras. Adriana Bicalho, à frente do setor desde a sua instalação, acompanhou vários casos bem-sucedidos. Citou o caso recente de um beneficiário que, após prestar serviços em entidade do bairro Cabana, foi chamado para trabalhar em um açougue da região. Isso comprova que a recuperação e a reinserção social são possíveis, destacou.
    Dentre as entidades  parceiras  que acompanharam a atuação do Sefips desde o seu início estão a Leuceminas, o Instituto Médico Legal (IML), o Hospital Espírita André Luiz e a Associação dos Praças (Aspra). Outras foram se sensibilizando e aderindo à causa, como escolas da  rede pública, Jardim Zoológico, Parque Municipal, Câmara Municipal de Belo Horizonte de Belo Horizonte, Associação Mineira dos Portadores do Vírus da Hepatite C. De acordo com informações do IML, mais de 40 prestadores de serviços já passaram pelo instituto, entre mecânicos, pintores, eletricistas, jardineiros e  bombeiros hidráulicos, e cumpriram de forma exemplar sua obrigação.
    Os benefícios, para os sentenciados e para as instituições, são recíprocos. Enquanto eles têm espaço para cumprir sua pena, as entidades passam a contar com serviços dos mais variados. O Sefips, ao encaminhar um beneficiário a uma das instituições cadastradas, observa critérios que vão desde o tipo de delito cometido até a aptidão do sentenciado, passando pelo local onde reside, escolaridade, dentre outros.
               Entre as instituições beneficiadas, recentemente, com a prestação de serviços comunitários estão a Creche Pezinhos no Chão, totalmente reformada com o trabalho dos sentenciados e recursos provenientes de penas pecuniárias das Varas Criminais de Belo Horizonte, e a “Crescer para o futuro”, cujo projeto de reforma foi elaborado por um beneficiário (engenheiro) que cumpre pena junto ao Sefips.
Institucionalização
    De acordo com o Ministério da  Justiça, no Brasil, a pena alternativa é aplicada em apenas 10% dos casos possíveis. Já na Inglaterra, informou Adriana Bicalho, esse tipo de pena é aplicado em cerca de 80% dos casos possíveis. Ela defende a institucionalização do Sefips, uma vez que o setor fortalecido poderá atender às outras varas criminais do Fórum Lafayette, no que se refere à fiscalização de penas restritivas de direito. “O setor tem experiência e critérios para encaminhar, orientar e acompanhar os beneficiários”, frisou. Acrescentou que a institucionalização possibilitará ao setor dar uma atenção especial aos casos de livramento condicional e propor ações voltadas para estes sentenciados, como palestras e oficinas.
    O juiz da Vara de Execuções Criminais de Belo Horizonte, Herbert José Almeida Carneiro, reconhece a importância do trabalho de ressocialização dos apenados, desenvolvido pelo Sefips, e tem envidado esforços no sentido da institucionalização do setor.
    Destacou que “o Sefips precisa ter uma estrutura adequada à relevância do papel que desempenha na ressocialização do apenado, assegurando a este, de maneira eficaz, o reencontro com suas famílias e comunidade, resgatando-lhe a dignidade maculada pelo crime cometido”. Lembrou que o trabalho do setor tem por meta fundamental possibilitar ao condenado o cumprimento de sua pena sem lhe tirar o direito, após ressocializado, de viver como uma pessoa normal.
Realizações
    Das realizações do Sefips  nestes 5 anos, ela citou o seminário com as entidades parceiras, realizado na Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes (Ejef), o encontro com os diretores dos centros de convivência e asilos das regionais de Belo Horizonte, a convite da Gerência do Idoso da PBH, e o treinamento com a equipe - sempre  com   o objetivo de esclarecer os envolvidos sobre o trabalho do Sefips e orientar entidades parceiras da importância da ressocialização do beneficiário. 
    Merece destaque também o trabalho diário dos integrantes do setor, seja no encaminhamento, orientação e fiscalização dos sentenciados, seja na sensibilização de um número cada vez maior de entidades. Atualmente, a equipe - que Adriana Bicalho define como “afinada e comprometida” conta com profissionais da área de direito, psicologia,  serviço social e da área administrativa. Os estagiários do setor atuam como fiscais do cumprimento de penas de prestação de serviços comunitários, sendo oito fiscais para nove regionais.
    Otimista, Adriana Bicalho defende ações futuras a serem desenvolvidas com a participação dos beneficiários do Sefips, como o projeto “Adote uma praça”, onde o sentenciado ficaria responsável pela conservação de praça, parque ou jardim, próximo ao local onde reside.  Enfatizou também que o sucesso do trabalho desenvolvido pelo Sefips depende de “uma rede social”, integrada  pelos beneficiários, família, comunidade, entidade e operadores do direito.
“Relatos”
    Ele tinha 17 anos. Envolveu-se com uma turma de farras, com drogas e chegou a praticar assaltos. O processo correu à revelia. A sentença saiu cinco anos após o crime, mas ele nem ficou sabendo. Dez anos depois, casado, com três filhos, com emprego de carteira assinada – “a Justiça me pega e faz uma reviravolta na minha vida”. Essa é a história de Marco Aurélio Ferreira Lima, hoje com 34 anos.
    De lá para cá, condenado a 5 anos e 4 meses, ele cumpriu parte da pena na Dutra Ladeira, depois em Unaí – época que lhe rendeu o livro “Relatos de uma vida – histórias carcerárias”. Autorizado pelos dirigentes das instituições por onde passou, Marco Aurélio escreveu sobre o sistema prisional com o olhar dos detentos, pois ouviu vários companheiros de prisão. Enquanto sonha com a publicação do seu livro, ele cumpre prisão domiciliar prestando serviços no Parque Municipal de Belo Horizonte.
    Marco Aurélio diz que o benefício da pena alternativa é uma ótima oportunidade e acredita que “no sistema carcerário, 30% poderiam estar cumprindo penas assim como eu.” Para ele, o custo é mais barato, mas reclama da discriminação e sente a dificuldade de uma contratação, pois as pessoas não confiam plenamente no recuperando.
    No Parque Municipal, eles somam 10 apenados, encaminhados pelo Setor de Fiscalização das Penas Alternativas (Sefips). Contam com o apoio direto da secretária da Administração, Teresa Cristina Silva, que se empenha para mudar a visão e a política com relação aos apenados que prestam serviços no parque. “Procuramos deixá-los em atividades em que sintam prazer. Não estamos aqui para a punição, mas para ajudá-los a se recuperarem”, frisa.
    O gerente do Parque Municipal, René Vilela afirma que a administração da Prefeitura Municipal de belo Horizonte aposta nas penas alternativas. “Para o parque, é muito importante, eles estão sendo aproveitados no Programa de Revitalização do Parque. Queremos estabelecer uma relação de confiança, não só cumprir as tarefas, mas ajudar mesmo na reintegração”, destaca.
    Entre os frutos do trabalho realizado pela Administração do Parque Municipal, adianta René Vilela, estão a integração dos apenados aos projetos de oficinas, palestras e programas voltados para funcionários, prestadores de serviços, ambulantes que atuam no parque. Além disso, há uma possibilidade de contratação de dois dos apenados. E quem sabe, a viabilização do sonho do Marco Aurélio, ajudando-o a publicar seu livro.
Contratações
    Também no Instituto Médico Legal, outro parceiro do Sefips, as contratações ocorrem, após o cumprimento da pena. O inspetor Emídio Estevam da Silva sempre recebe agradecimentos dos apenados que passaram pelo por lá prestando serviços e hoje estão empregados, muitas vezes em funerárias através de contatos feitos no IML.
    No IML, 44 apenados cumprem penas alternativas e fazem trabalhos diversos – capina, faxina, mecânica, portaria e até administrativo. “Esta parceria é muito importante porque, além de os apenados estarem fora das prisões, estão prestando serviços ao Estado, que tem uma falência crônica de funcionários e não dá conta de todos os serviços necessários”, explica o inspetor Emídio.
    Cláudio Bento, escritor, poeta, condenado a quatro anos por tráfico de drogas, vai ao IML uma vez por semana e atua como porteiro. Ele vê como positivas as penas alternativas, já que “o sistema prisional brasileiro não tem condições para atender o contingente de presos. E as penas dão margem para a pessoa se recuperar dentro da própria sociedade e não dentro da cadeia que, todo mundo sabe, é pior para qualquer pessoa”.
    Atuando também como porteiro, o aposentado José Eugênio de Almeida, condenado por se envolver com uma menor quando vendia doces e balas em frente a uma escola em Betim, está feliz com a possibilidade de prestar serviços no IML, onde sente que tem “uma verdadeira família”, além de elogiar a orientação e atenção que recebe da equipe do Sefips.
No Zoológico
    Também a Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte, que integra a Casa dos Jardins Zoológico e Botânico, é parceiro do Sefips nessa empreitada de ajudar os recuperandos a se reintegrarem à sociedade. Lá, três apenados vão semanalmente ajudar, principalmente no serviço de portaria e administrativo, sendo que um deles passa o domingo a serviço do Zoológico.
    O chefe de Gabinete da Presidência, Cleber Maia, acredita que as medidas alternativas são benéficas tanto para o apenado quanto para a Fundação: “Para o apenado porque deixa de cumprir a pena preso, o que diminui a população carcerária e ajuda na sua recuperação. Para a Fundação tem sido importante porque há uma carência de mão-de-obra e o apenado fortalece a equipe.

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