Debate sobre banalização do uso de algemas data de 1961
por Vicente Dianezi
A banalização do uso de algemas pelas autoridades policiais
brasileiras voltou ao debate. Foi provocado, desta vez, pela própria Polícia
Federal que, ao vazar informações para uma emissora de televisão, quis
transformar a socialite ítalo-quatrocentã, Eliana Piva de Albuquerque Tranchesi,
dona da megabutique Daslu e suspeita de sonegar impostos, na “mulher maravilha”
do mal. Ou fazer o clã dos Schincariol, também suposto sonegador, parecer com o
lendário Gino Meneghetti, bandido que aterrorizou a burguesia industrial-agrária
paulistana, na década de 40.
O debate volta à tona porque as imagens das algemas nos punhos da
elite chocaram a elite — e a divulgação das imagens se deveu, exclusivamente, à
prática nada republicana da Polícia Federal de privatizar uma informação
pública, articulando-se com um veículo de comunicação privado para promover um
show político-pirotécnico. Delegados da Polícia Federal ouvidos pela revista
Consultor Jurídico (clique aqui para ler), atribuem a polêmica ao fato de
se estar algemando representantes da elite, caso contrário, as algemas não
provocariam tanta indignação.
Não é bem assim. O uso indiscriminado das algemas provoca polêmica
na Câmara dos Deputados pelo menos desde 1961. Neste ano, o então deputado
Pereira Nunes, do extinto Partido Democrático Social (PSD), já propunha a
proibição das algemas, em qualquer cidadão, em todo o território nacional. Era
uma proposta radical. Não se conceberia, pinçando um exemplo da realidade atual,
prender sem algemas a besta-humana do Elias Maluco, que ordenou a brutal morte
do repórter da Globo, Tim Lopez.
Também há o registro, em 1965, da proposta do ex-deputado Eurico
de Oliveira, do extinto MDB — Movimento Democrático Brasileiro — representante
do também extinto Estado da Guanabara. A iniciativa de Oliveira (Projeto de Lei
3.337/1965) foi para o arquivo, um ano depois de apresentado, revelando-se mais
como uma bandeira da resistência democrática contra a ditadura militar do que
uma real preocupação com a banalização do uso das algemas. Ele propunha que
apenas os presos políticos não fossem algemados.
Após a ditadura militar e na esteira de redemocratização, o debate
voltaria com força em 1991, por conta do Projeto de Lei 1.918/1991 do
ex-deputado federal, Jamil Haddad do PSB do Rio de Janeiro. Ele propunha que o
uso de algemas só seria permitido nos casos de resistência à ordem de prisão,
tentativa de fuga, suspeita de evasão ou que pudesse causar risco à própria
integridade física do detido ou a de outrem. O projeto de Haddad foi aprovado em
Plenário e enviado ao Senado Federal, em junho de 1993 e, desde então, não se
tem conhecimento da sua trajetória.
Mais recentemente, o deputado Alberto Fraga (PMDB-DF), policial
militar de carreira, em abril de 2000, pretendeu regular o uso das algemas com o
Projeto de Lei 2.753/00. E discriminou motivos para a sua utilização:
delinqüente preso, ébrio turbulento e transposição para outras dependências de
reclusão. “O projeto (...) visa garantir o exercício da autoridade policial e
(...) dotar a sociedade de um instrumento legal que garanta os seus direitos”,
ele argumentou na justificativa da proposta.
Ao projeto de Fraga foi anexada a proposta do ex-deputado De
Velasco — Projeto de Lei 3.287/200 — relatado pelo então líder da bancada do
PSB, deputado Alexandre Cardoso (RJ). Pronto para votação no Plenário, o projeto
ficou dormitando na mesa da Câmara dos Deputados. Até que, o deputado Wagner
Rubinelli (PT-SP), neste ano, apresentou nova proposta (Projeto de Lei
5.494/2005). Desse modo, o regramento do uso de algemas voltou novamente para
discussão em Comissão não se sabendo, até agora, porque razões essa questão
patina no Parlamento até hoje sem qualquer definição.
Fonte : Consultor Jurídico, www.conjur.com.br , 18 de julho de
2005